Como quem não quer nada, peça permissão e procure bem no fundo dos armários da casa de seus pais, tios ou avós. Certamente você irá encontrar uma câmera fotográfica usada.

Pode ser que surja uma daquelas mais simples, mas talvez você encontre uma câmera reflex. Nos idos dos anos 80, várias pessoas compraram câmeras como a Pentax K1000 ou a Canon AE-1 e, pela dificuldade em utilizar modos manuais ou apenas por falta de oportunidade, nunca mais as utilizaram e as deixaram guardadas. Pois bem, se você não tiver paciência para usar filme e tem uma reflex digital, a lente daquela câmera usada pode render uma bela brincadeira.
Sabe-se que as lentes (ou, sendo mais correto, as objetivas) de câmeras reflex atualmente são caras. Muitas vezes, custam mais que as próprias câmeras. O motivo do preço ser alto, desconsiderando o Custo-Brasil, é que as empresas desenvolvem produtos de qualidade com estabilizadores de imagem, focagem automática com motores ultrassônicos e componentes eletrônicos que transformas as objetivas em verdadeiras jóias. Porém, o que realmente importa nas objetivas são suas lentes, o “vidro” por onde a luz passa e é moldada para chegar ao sensor. A engenharia ótica já era bem avançada no início do século passado e a maioria das lentes daquela época já entregava resultados iguais ou superiores aos das objetivas atuais. Talvez superiores mesmo, pois várias das lentes atuais não utilizam mais cristal e sim polímeros de plástico. A ganância das empresas também não era a mesma, e tinhamos produtos de qualidade vendidos mesmo nos kits para amadores. Aí é que a coisa começa a ficar boa.
Tomemos como exemplo a Pentax Spotmatic. Essa câmera vinha equipada com uma lente Takumar 50mm f1.4, com ótica excelente e muito bem construída, com o corpo todo em metal. Era a lente mais barata da linha. Hoje encontramos aqui no Brasil, usada, a R$ 150,00 nas lojas da região da Sete de Abril, em São Paulo, e nos EUA de U$ 60 a 80,00 no eBay. Já a equivalente da Canon, a Canon 50mm f1.4 USM, custa R$1.799,00 na Consigo. Nos EUA, ela custa U$ 389,00 na BH, e no eBay (usada) o preço é pouca coisa mais baixo. Os críticos dirão que estou misturando bananas com laranjas, pois são lentes diferentes, que a Canon é mais moderna, tem foco automático e outros argumentos, mas esta mistura tem um propósito: eu não tenho uma Canon 50 1.4 mas tenho, por falta de uma, DUAS Takumar 50 1.4. Uso esta opção para assuntos estáticos quando posso focar a imagem e fazer a fotometria com calma. Com certeza elas não substituem uma lente zoom com estabilizador de imagem para algumas finalidades, como fotojornalismo, espetáculos de dança ou corrida de carros, mas para retratos e fotos em situações mais descontraídas são uma excelente solução. Tenho a sensação de que estou fotografando com mais dedicação quando fecho o diafragma na própria lente e faço o foco manualmente, talvez por ter aprendido desta maneira.
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Canon 5D Mark II equipada com Takumar 50mm f1.4

Como utilizar estas lentes nas câmeras digitais

Apenas as câmeras que trocam lentes (reflex ou as novas micro4/3) podem utilizar estas lentes. As compactas já tem a objetiva fixa e não há como trocar. A conexão entre a câmera e a lente se faz através de adaptadores, que imitam o encaixe da camera original de um lado e do outro imitam o encaixe da câmera para a qual serão adaptadas. Funciona como um filtro para lentes, mas que se encaixa na traseira da objetiva, e não na frente. O uso destes adaptadores não causa danos à câmera nem à lente. Os melhores são aqueles sem elemento ótico que pode degradar a imagem perdendo assim o benefício do uso destas lentes.
Estas peças são baratas (algo em torno de U$ 30,00) podem ser encontradas no eBay ou no Mercado Livre através de pesquisa com os termos “EOS Adapter” ou “Adaptador EOS” para as câmeras Canon, por exemplo. Outra maneira de pesquisar é através do tipo de mount (formato) da lente em questão. Supondo ainda que a lente seja de rosca M42, basta utilizar o termos “M42 adapter” e você encontrará todos os adaptadores de lentes de rosca M42 para diversas câmeras.
Não são todas as reflex que podem utilizar estas lentes. As câmeras que têm mais compatibilidade são as Canon, Pentax e Sony. As Nikon e Fuji, pelo tamanho reduzido do registro, necessitam de adaptadores sem elemento ótico e isso pode degradar a imagem. No caso da Canon, apenas as objetivas antigas da Canon (Canon FD) e as Minolta não podem ser adaptadas, bem como as lentes para câmeras rangefinder. Por outro lado, toda a linha M42, Pentax K, Pentax 645, Pentax 67, Leica-R e Nikon podem ser utilizadas.
Minha experiência é com corpos Canon e lentes rosca M42 e Leica-R. Para estas marcas há várias lentes disponíveis no mercado. Sugere-se que o adaptador tenha o chip de confirmação de foco (a pecinha preta com contatos metálicos no primeiro adaptador da foto acima). A finalidade desse chip é “enganar” a câmera, para que esta reconheça a lente que está acoplada a máquina, e dê a informação do foco. Com esse chip podemos ter certeza de que o foco encontra-se realmente onde desejamos.
Na foto acima temos 3 adaptadores, sendo os dois a esquerda para lentes M42 – o primeiro mostrando a face voltada para a câmera, e o segundo mostrando a face voltada para a lente. Note que o adaptador da segunda foto tem uma aba metálica na parte interna. Esta aba é necessária para algumas lentes, sendo que, sem ela, pode ser impossível utilizar todas as aberturas das lentes M42. Por fim, vemos o adaptador da direita sendo diferente dos dois primeiros, que serve para lentes Leica-R
Canon 5D Mark II com adaptador M42 instalado

Lentes selecionadas para comentários

Aqui, algumas lentes que posso recomendar para uso:

Lentes variadas para uso com adaptadores em câmeras digitais
Rosca M42:
Takumar 50mm f1.4 – Já citada acima, é uma lente clara, com excelente desfoque, muito nítida e barata.
Takumar 50mm f1.4
Carl Zeiss Jena Pancolar 50mm f1.8 – Lente clara, com um desfoque maravilhoso, contraste bonito, cores muito bonitas. Marca conceituadíssima no mercado, atende marcas como Rolleiflex, Hasselblad e, atualmente, Sony. A minha tem um problema crônico no diafragma que não fecha além de f11, apesar de já ter ido pra manutenção. Não é um grande problemas, pois este tipo de lente não é pra ser utilizada com o diafragma todo fechado e não me incomoda. Ouvi dizer que este é um problema que ocorre em algumas lentes desta marca.

Carl Zeiss Jena Pancolar 50mm 1.8
Takumar 35mm f2.0 – Lente difícil de encontrar no Brasil, mas que é bastante clara e tem um bom desfoque para uma lente 35mm. Funciona como uma 50mm quando usada em câmeras cropadas (40D, 50D, 60D, T2i, T3i, T4i, 7D). Bastante nítida.

 Takumar 35mm 2.0
Takumar 135mm f2.5 (e f3.5) – Estas duas lentes são muito boas. A 2.5 é mais clara, tem um desfoque bem bonito e é bem nítida, porém maior e mais pesada que a 135 3.5. A 3.5 é mais barata, menor e mais leve, mas 1 ponto mais escura. Recomendo as duas.

Takumar 135mm f2.5
Carl Zeiss Flektogon 20mm f4 – Grande angular de excelente qualidade. Relativamente cara, mas que, devido a marca, vale muito a pena. Boa nitidez, sem grande distorção da imagem.
Mir 1v 37mm f2.8 – Uma das melhores lentes que já vi, e uma das mais baratas também. Como toda boa lente da ex-URSS, era feita em grande quantidade para equipar as câmeras do leste europeu a um baixo custo. Boa parte da industria ótica russa desenvolveu-se após a Segunda Guerra, quando as fábricas da Zeiss que ficaram do lado comunista da Alemanha tiveram suas fórmulas óticas descobertas. Tem um desfoque muito bonito e o sistema de diafragma funciona como preset, ou seja, você seleciona a abertura de diafragma desejada e, girando um anel em frente a câmera, abre e fecha o diafragma sem precisar olhar para a lente desde a abertura máxima até a abertura desejada. Oras, pra que isso serve? Serve para facilitar a fotometria: você abre seleciona abertura de diafragma desejada e ajusta a fotometria. Na sequência, abre todo o diafragma pelo anel preset e foca a imagem, e depois fecha todo o anel, sem precisar tirar a câmera do olho para ver qual é a abertura que estava utilizando. Um outro benefício é para quem filma usando DSLR – é possível fazer o controle de entrada de luz mais gradual, como se fosse um efeito de “fade”, sem o efeito brusco de fechar o diafragma pelos cliques da escala habitual.

Mir 1v 37mm 2.8

Helios 44 58 f2.0 – Essa lente é um chuchu. Cópia da Carl Zeiss Biotar, equipava as antigas câmeras russas Zenit. É a primeira lente que qualquer pessoa deve ter ao se aventurar no mundo das lentes manuais, por ter qualidade de primeira e ser muito barata. Encontra-se câmeras Zenit a 100 reais no Brasil. Só pela lente já vale a pena. Curiosamente, por ter a Takumar 50 1.4, não comprei esta Helios.

Leica-R Summicron 50mm 2.0
Leica Super Angulon 21mm f4 – Grande angular com pouca distorção e ótima nitidez.

Leica-R Super Angulon 21mm f4
Leica Elmarit 180mm f2.8 – Ótima tele, porém bastante pesada.

Leica-R Elmarit 180 2.8

O que observar antes de comprar uma lente

Como todo item usado, devemos ter atenção em algumas coisas antes de fechar a compra. O ideal é ver a lente antes de comprar e testá-la, mas quando compramos pela internet, isso pode ser um problema. Neste caso, as fotos do anúncio podem ser elucidativas, bem como a pontuação do vendedor. No eBay estima-se muito a reputação do vendedor e tento adquirir produtos de vendedores com reputação acima de 99,5%, de preferência americanos, ingleses ou alemães.
1) A lente deve-se encontrar em bom estado estético, sem muitas marcas externas, amassados ou sinais de manipulação
2) Os elementos óticos devem estar limpos, sem arranhados muito visíveis no elemento frontal (pequenas marcas não causam qualquer problema). É desejável que não haja fungos em seu interior, mas uma pequena quantidade de fungos não é problema e pode ser limpo em qualquer oficina. O elemento posterior deve estar totalmente liso, sem arranhados ou fungos.
3) O anel de diafragma deve correr todos os estágios sem travar ou sem resistências anormais, e não deve estar torto (muito comum em caso de quedas). O diafragma deve fechar em todos os estágios e abrir totalmente sem resistência.
4) O anel de foco não deve estar torto ou amassado e o barril da lente deve ir para frente e para trás suavemente conforme ocorre o foco, sem enroscar. Se possível, confirmar que haja foco desde a menor distância impressa no anel até o infinito utilizando uma câmera com o adaptador e ou a câmera original. Tive problemas recentemente com uma lente em que a escala de foco não condizia com a realidade e o foco no infinito ocorria antes do impresso. Perdi algumas fotosantes de detectar o problema. Depois disto, bastou corrigir a escala e ficou tudo certo.
5) O encaixe da lente na câmera (“baioneta”) deve estar com todos os parafusos e estar bem fixo a lente, sem marcas de manipulação.

Pontos negativos do uso de lentes antigas em câmeras digitais

Não existem tantos pontos negativos assim. Não teremos a praticidade do autofoco nem dos modos automáticos da câmera, e a abertura do diafragma deverá ser realizada no anel da própria lente e não através de botões. Neste caso, o ideal é treinar com a lente antes de fotografar a sério, para pegar todos os passos certinho e torná-los automáticos. Minha sugestão é utilizar o modo M (onde o fotógrafo seleciona a velocidade e abertura conforme o fotômetro) ou o modo Av (onde o fotógrafo seleciona apenas a abertura e a câmera decide qual é a velocidade).
Particularmente uso o modo Av, da seguinte maneira: mantenho a câmera com uma seleção de ISO adequada para a cena (100 para ambientes externos, 400 para internos iluminados e 800-1600 para ambientes escuros) e abro todo o diafragma. Ao encontrar a cena que quero fotografar, meço a luz com a lente toda aberta e vou fechando até encontrar uma velocidade compatível para a lente – uso no máximo o valor de velocidade igual ou próximo a distancia focal da lente (p.ex., se for uma lente 50mm, uso 1/60; se for 135mm, uso 1/125). Sabendo aproximadamente a quantidade de cliques que o diafragma fez, abro o diafragma todo e faço o foco. Daí, fecho o diafragma de novo pelo número de cliques que fiz antes e observo a velocidade que a câmera dá e, ao chegar na velocidade pretendida, faço a foto. Parece complicado, mas com um pouco de prática, fica natural. Antigamente, fotografava-se apenas assim.
Um problema em potencial que observo é a variação da fotometria. Na Canon 40D ocorria quando fechava bastante o diafragma, e a leitura do fotômetro tendia a superexposição em algumas situações de luz. Ainda não observei este problema na 5D Mark II. Uma possível solução é utilizar a fotometria spot ou a ponderada central ao invés da matricial.
Por fim, algumas lentes não podem ser utilizadas em câmeras fullframe (p.ex. 5D Mark I, II e III, 1Ds Mark I, II e III) com foco no infinito. Isso ocorre porque o elemento traseiro da lente penetra demais no corpo da câmera e bate no espelho quando esse sobe e desce. Testei as minhas lentes acima e todas as Leica-R podem ser utilizadas em fullframe, bem como a Takumar 135mm 2.5 e a Carl Zeiss Flektogon 20mm f4. A Takumar 35 2.0 pode ser utilizada até quase o infinito e, usando hiperfocal em f4, a escala já engloba o infinito. A Takumar 50m 1.4 pode ser utilizada até 10 metros e quando em f8 a hiperfocal já engloba o infinito. Não podem ser utilizadas a Carl Zeiss Pancolar 50mm 1.8 e a Mir 1v 37mm 2.8.

Considerações finais

O uso de lentes adaptadas é uma opção para quem tem ou deseja ter familiaridade com foco manual, tem um certo espírito experimentalista e deseja ter lentes de qualidade a preços módicos. É uma opção viável a usuários de câmeras Canon, Pentax e Sony principalmente, e são facilmente encontradas em sites de compra no Brasil e no exterior. O uso destas lentes requer certa destreza mas, com um pouco de prática, podem ajudar o fotógrafo a contruir ótimas imagens.

 

Referências 1 e 2