Nascido em 1933, Bruce Davidson é um fotógrafo na corda-bamba. Entre o rigor da composição e o instinto, entre o policial e o infrator, entre o envolvimento pessoal com seus assuntos e a disciplina profissional, entre o instante que leva o espectador a um mundo de sonho e aquele que o devolve à realidade. Mais do que um contador de histórias fascinado por pessoas, trata-se de um dos mais influentes fotógrafos de nosso tempo. De forma intensamente pessoal, registrou com paixão e delicadeza personagens diversos, de um anão circense aos membros de uma gangue americana, dando ênfase às classes baixas nova-iorquinas, figuras centrais nas lutas por direitos civis nos anos 1960. Mesmo que a cidade de Nova Iorque seja o principal cenário de seus ensaios, foi em Paris que Davidson realizou seus primeiros trabalhos comerciais e conheceu Henri Cartier-Bresson. Dessa amizade, herdou a defesa da tradição preto e branco na reportagem e tornou-se membro do time da Magnum, agência onde está até os dias de hoje.

Fotógrafo nato, Davidson cresceu em Chicago e ganhou sua primeira câmera em 1940. Antes dos 10 anos, já fotografava as crianças que brincavam em um subúrbio da vizinhança, em Ilinóis. Conseguiu um emprego em um laboratório fotográfico na adolescência e se apaixonou definitivamente pelo ofício, lembrando de seu primeiro dia de trabalho com o mesmo entusiasmo quase 70 anos depois: “Uma luz brilhou, uma folha de papel foi colocada em uma bandeja d’água e uma imagem se formou. Isso me pegou e me puxou – esse processo misterioso. Foi um breve encontro, mas que carrego comigo até hoje”. Depois de alguns dias, acabou convencendo a mãe a construir um pequeno laboratório na garagem de casa, onde passava boa parte de seu tempo livre. Após estudar no Rochester Institute of Technology na Universidade de Yale, foi convocado para o exército e estabelecido em Paris, onde conheceu Henri Cartier-Bresson. Quando deixou o serviço militar, em 1957, Davidson trabalhou como fotógrafo freelancer para a revista LIFE até se tornar um membro definitivo da Magnum, um ano depois.

Apaixonado por sua inseparável Leica 28mm, vê na câmera uma ferramenta de trabalho pequena, leve e discreta. De acordo com Davidson, é graças a ela que consegue se aproximar tanto quanto necessário de seus assuntos e não influenciá-los enquanto clica. “Quero ser invisível e não quero ser agressivo de forma alguma. Isso significa silêncio e isso significa Leica”, contou, em entrevista. Foi pela discrição do material que conseguiu se infiltrar na gangue que o rendeu um de seus mais celebrados ensaios, “Brooklyn Gang”, que retrata um grupo de jovens rebeldes do distrito Brooklyn. A série foi feita nos primórdios dos anos 1960, bem como outros de seus ensaios seminais, “The Dwarf” e “Freedon Rides”. Em 1962, recebeu uma bolsa da Fundação Guggenheim e dedicou-se a documentar movimentos pelos direitos civis nos Estados Unidos. Logo depois, em 1963, ganhou sua primeira exposição solo no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA).
Todos esses ensaios foram fruto de meses ou anos de dedicação. Para o melancólico retrato de um palhaço em “The Dwarf”, Davidson viveu como nômade em um grupo circense durante um ano. O fotógrafo explica que seu trabalho tem um efeito cumulativo: “Eu sou como uma espécie de serial killer, leva um longo tempo antes que eu possa compreender o que estou olhando.[…] Além disso, se você já entrou na vida de alguém, você tem que viver lá por um tempo”.
Depois de receber a primeira concessão para trabalhos fotográficos do National Endowment for the Arts, passou dois anos registrando as precárias condições de vida dos moradores de um condomínio em East Harlem, um dos mais pobres bairros nova-iorquinos. O trabalho foi publicado pela primeira vez em 1970 na Harvard University Press sob o título “East 100th Street” e depois expandido e republicado na St. Ann’s Press. Extremamente impactante, trata-se de uma das mais poderosas documentações da pobreza e da discriminação já registradas nos Estados Unidos. Causou controvérsia justamente pela proximidade de Davidson com os assuntos e tornou-se exposição, sediada no MoMA.
Em 1980, passou a arriscar-se, também, na fotografia colorida, dedicando-se a uma das temáticas que mais atrai fotógrafos nova-iorquinos, o metrô. “Subway” registrou a vitalidade e a efervescência do mais popular transporte público da Big Apple e foi publicado no Internacional Center of Photography em 1982. Dos anos 1990, vale destacar sua série sobre paisagens (também um novo desafio) do Central Park. Em 2006, voltou-se a uma temática distante da sua cidade predileta em “The Nature of Paris”, marcando um retorno à França, país sede de importantes episódios em seu crescimento como fotógrafo.

“Se eu estou procurando uma história, ela se encontra na minha relação com o assunto – é isso o que a história conta, mais do que o que a imagem mostra”
Bruce Davidson

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