Conforme vocês começarão a perceber a partir de agora, há elementos de composição que tem um peso consideravelmente maior no resultado final.

Foto do caminho da entrada de um hotel de montanha próximo a Lucerna, na Suiça. O pergolado é o elemento principal da composição, pois suas linhas formam uma persceptiva, aprofundando-se na imagem. O bonito contraste de cores entre o vermelho da trepadeira e o verde ao fundo, ambos saturados pelo filtro polarizador, é o outro elemento importante de composição da imagem. Em uma foto com elementos poderosos como esses, as proporções são irrelevantes.

Um dos mais poderosos elementos de composição na fotografia são as linhas; especialmente linhas de fuga, que criam uma perspectiva.

Nessa aula você irá aprender a buscar perspectivas. E o melhor exercício para isso está nas fotos de paisagens. Desde que há pouca possibilidade do fotógrafo intervir na paisagem – não tem como mudar uma montanha de lugar, nem prédios ou árvores – a chave para fotografar paisagens é prospectar, descobrir detalhes interessantes, observar como os elementos estão arranjados. E então as linhas, curvas, padrões, texturas e cores vão se revelando ao olhar cuidadoso.

Lembre-se que a fotografia é uma representação tridimensional em uma superfície bidimensional. Pense no plano da imagem como uma foto em papel.

A grosso modo podemos dividir as linhas em dois tipos, conforme sua orientação em relação ao plano da imagem: linhas paralelas e linhas inclinadas em relação ao plano da imagem (que parecem entrar para dentro do plano).

Linhas paralelas ao plano da imagem

As linhas horizontais, verticais ou diagonais que estão paralelas ao plano da fotografia nãoformam perspectivas.

Uma das mais fortes e certamente a mais presente na fotografia é a linha do horizonte, com a qual nós devemos sempre nos preocupar, pois ela tem impacto até nas fotos mais comuns que tiramos de nossos parentes e amigos – por exemplo, se a linha do horizonte passar no rumo do pescoço da pessoa, causará a impressão de que está cortando a cabeça.

Porque ela surge dividindo massas de terra, água e ar, a linha do horizonte é  mais afeita às proporções. Já aprendemos como resolver a linha do horizonte nas aulas anteriores.

Linhas diagonais são mais expressivas e tem um efeito forte sobre a composição porque elas produzem variação na imagem – não são monótonas como as linhas horizontais ou verticais.

Elas ficam ainda mais especiais quando convergem para um assunto. O esquema ao lado mostra linhas diagonais formando triângulos e reproduz exatamente as linhas da foto abaixo.

Esse é um pé de pêra. Pra mim foi uma baita novidade. Lá em Minas eu era mais conhecedor de pé de jabuticaba, manga e goiaba.

Esse lugar fica a 20 km de Lucerna e é lindíssimo. Tirei boas fotos da família lá. Outro exemplo bem parecido em Interlaken, uma cidadezinha na região dos alpes da Suiça. Repare que as linhas diagonais formam triângulos interessantes e são paralelas ao plano, não formam ângulo com o plano da foto e portanto não formam, por si só, uma perspectiva.

As linhas da montanha e o rico contraste de cores quentes e frias formam uma composição agradável. A perspectiva aqui não é feita pelas linhas, porque estão paralelas ao plano. Apenas o efeito atmosférico de esfriamento das cores, que tendem ao azul, é quem sugere a distância. Foto em Interlaken, Suiça.

Linhas inclinadas em relação ao plano da imagem

As linhas inclinadas em relação ao plano são chamadas de linhas de fuga. No desenho de perspectiva, são linhas que reproduzem o efeito de profundidade convergindo para um ponto distante, dentro da imagem, chamado de ponto de fuga. As linhas de fuga dão a sensação de tridimensionalidade  e são elementos muito fortes na imagem. Elas podem ser reais, como as linhas da estrada e dos prédios, ou imaginárias (projeção), como as linhas da base e da copa das árvores.

Ponto de fuga (PF) é o ponto imaginário de intersecção das linhas de fuga com a linha do horizonte (LH), para onde todas as linhas paralelas convergem, quando vistas em perspectiva.  Ele marca a direção para onde os objetos se aprofundam e, por conseguinte, o ponto de vista do fotógrafo.

Mas mesmo na ausência de linhas de fuga, a perspectiva pode ser formada por outros elementos que dão a ilusão de profundidade. São eles:

  • O efeito atmosférico de esfriamento de cores (tendem ao azul, como na foto de Interlaken acima);
  • A perda de contraste  (as cores vão esmaecendo com a distância, por causa da atmosfera);
  • A luz lateral que enfatiza relevos, com sombras longas, criando a sensação de profundidade.

O hotel onde tirei as fotos acima. Aqui não há nenhuma linha de fuga. Mas há uma ilusão de profundidade formada por dois dos elementos descritos acima: a perda de contraste – cores vão esmaecendo com a distância – e a luz lateral no gramado forma um relevo perfeitamente tridimensional com longas sombras de árvores.

Pintores sabem de tudo de perspectiva em detalhes e quem cai direto na fotografia sem passar pela pintura ou desenho, como foi o meu caso, demora um pouco para perceber.

As linhas de fuga e o ponto de fuga estão bem evidentes nessa foto do Parque Orangerie, em Estrasburgo, França, em pleno outono:

E nessa foto de Veneza também:

Em fotos urbanas as linhas retas são mais comuns. Na natureza, quase tudo é curvo.

Vista do Arco do Triufo em direção a La Defense.

Estou ilustrando essa aula com fotos que eu tirei como turista, ou seja, sem muito apuro ou esmero e sem escolher a melhor posição, pois eu não estava ali para fotografar e sim acompanhado da família, passeando, apenas com uma câmera na mão. Mas valem como um exemplo do poder das linhas de perspectivas: mesmo fotos de turista podem ficar bonitas. São fotos de diversos lugares, selecionadas de acordo com uma única coisa em comum: as linhas – retas ou curvas – de perspectiva.

As linhas curvas são bem mais ricas em variação que as retas e, portanto, produzem resultados mais graciososos. As fotos a seguir foram de cima da torre Eiffel – a verdadeira torre de Babel, visitada por turistas do mundo inteiro. Lá você ouve ao mesmo tempo uma grande profusão de idiomas. Abaixo, a cidade mágica se descortina aos olhos:

O sol baixo no horizonte enfatiza relevos, torna mais evidentes as linhas do urbanismo. Do alto da torre Eifel, eu busquei as curvas.

Eu adoro curvas. Procuro sempre elas no enquadramento, como nas fotos abaixo, tiradas na Villa del Balbianello, no Lago de Como, na Itália. O jardim é todo feito em curvas e as linhas de fuga (ou seriam curvas de fuga?) conduzem os olhos para o lago:

O tempo estava chuvoso e eu aproveitei o baixo contraste de luz. Usei um filtro polarizador para eliminar os reflexos das folhas molhadas e da água a fim de aumentar a saturação do verde da vegetação e do azul do lago. Medição básica de luz pontual no verde, checada de vez em quando no histograma da câmera, sem grandes alterações porque a luz estava estável.

Curvas em S são ainda mais especiais que as curvas normais.

Várias linhas retas, em diferentes patamares, cada uma levando a uma estátua em uma perspectiva bem diferente neste outro fantástico jardim no Lago Maggiore, na Itália:

Eu gostei muito dessa foto em Isola Bella – Lago Maggiore, IT

Voltando à Suiça, em Lucerna, eu arrisquei algumas fotos em preto e branco:

Longas linhas de fuga com uma charmosa curvinha depois da torre.

Do alto da roda gigante, em Zurich, balançando, câmera na mão, com asa 1600:

As linhas do rio aprofundam a vista na cidade. Sem essas linhas (ou melhor, esse plano, porque o rio inteiro serve como condutor da perspectiva) a foto iria ficar sem graça, só com telhados.

Da janela de um trem em movimento, subindo a montanha Jungfraujoch, na Suiça:

Curva em S de novo.

As linhas estão por toda a parte. Até nas fotos macros, como dessa flor no alto da Serra da Canastra, em Minas Gerais, minha terra natal. Observe essa sempre-viva. De longe, as linhas não são nada relevantes:

Mas de perto, as linhas de fuga aparecem com bastante tridimensionalidade:

E aqui, bem de pertinho, as linhas quase evanescentes, com essas micro florzinhas na ponta, olha que beleza:

Perspectiva é também o que a fotografia lhe traz: novas maneiras de enxergar o mundo, perceber detalhes, nuances de luz, cores e texturas, depurar sua visão e lhe trazer poesia. O que mais esperar da fotografia?

 Entreculturas – Luigi Rotelli