Mulheres vêem fotos de maneira diferente dos homens? Pesquisadores queriam saber quais partes da foto são olhadas e a duração do olhar. Eles testaram um grupo de homens e outro de mulheres usando o eye tracking (aparelho que faz rastreamento dos olhos – ver aula anterior) olhando por alguns segundos um jogador de beisebol. Os resultados foram plotados em mapas no qual as cores marcam o tempo de fixação do olhar.  Tente adivinhar qual dos mapas é do grupo feminino, o da esquerda ou o da direita:

Quanto mais quente é a cor, maior o tempo de fixação. Se você pensou que o mapa do grupo feminino é o da esquerda, errou. É o da direita. As mulheres olharam apenas para a face do jogador.

Agora olhe bem a ilustração abaixo por alguns segundos e tente registrar onde você olhou mais demoradamente e onde você olhou apenas de relance:

Confira agora abaixo com a análise do eye tracking – as zonas mais quentes marcam onde os participantes da experiência fixaram por mais tempo os olhos. A pesquisa foi feita por iniciativa de James Gurney, o artista que fez essas ilustrações de dinossauro.

Fica claro no mapa de calor que há um tempo de fixação maior na face do dinossauro grande, no homem escondido na árvore e no pequeno dinossauro rosa no cantinho da imagem. As 3 faces absorveram quase toda a atenção dos visualizadores. É algo que está ligado aos nossos instintos básicos. Secundariamente, um parte percebida como anômala pela visão periférica, como o líquen no tronco da árvore acima do homem também recebeu atenção, bem como uma busca para ver se havia algo escondido na vegetação rasteira, dentro do contexto de perigo e ameaça representado na ilustração. Ou seja, há um interesse também na história que a imagem conta.

O mesmo acontece na ilustração seguinte:

Repare que entre as zonas de grande interesse estão a face do dinossauro e as crianças. Mas aqui foi observado “um forte ponto focal em volta da pata frontal do dinossauro e as crianças próximas correndo” (traduzindo literalmente James Gurney). Ou seja, aqui o interesse maior está na história, na situação de risco, no perigo iminente da enorme pata do dinossauro esmagar uma criança.

Portanto, dois fortes pontos de atração dos olhos em uma composição estão nas faces, humanas e animais, e em pontos focais da história representada na imagem.

Isso é muito interessante, porque pintores barrocos há 400 anos atrás já sabiam disso sem aparelho nenhum. Observe o quadro “Sansão cego pelos filisteus” do pintor holandês Rembrandt van Rijin (1606 – 1669):

Este quadro conta uma história em tempo presente, mostra um ação acontecendo, o ato de extrema violência da adaga sendo fincada no olho. Depreende-se também da cena a força descomunal de Sansão, um homem tão forte que é preciso um número incomum de soldados para contê-lo. Mas engenhosamente o pintor mostra, além da ação presente, também o passado no mesmo quadro. Ele conta uma história. Lá está Dalila, em segundo plano. Em suas mãos estão o cabelo e a tesoura, representando uma ação anterior, que já passou, o ato de traição em que ela corta o cabelo de Sansão, retirando sua fonte de poder e invulnerabilidade, o que permitiu o ataque dos filisteus.

“Aqui coloca-se a Rembrandt um problema, como desenvolver toda a narrativa quando esta pictoricamente está confinada ao seu momento derradeiro? A resposta é sabiamente dada de forma subtil e sem contrariar o sentido estético da composição. Em Rembrandt se a acção se centraliza no clímax, e como tal ocupando o primeiro plano, o segundo plano, tal coma as personagens secundárias, deixam de ser adornos estéticos ou meros figurantes através dos quais o artista passeia o seu virtuosismo. Com Rembrandt a pintura complementa-se com a incorporação destas personagens secundárias e através delas é encontrada a fórmula de permitir ao observador a leitura de toda uma estória cujo culminar está centrado no primeiro plano.” (excerto do artigo de José Eduardo de Almeida, no sítio Enciclopédia, de Portugal)

E na fotografia, como na pintura, esta narrativa também acontece. E ninguém conta melhor uma história do que nosso grande fotógrafo brasileiro, Sebastião Salgado. Na foto abaixo, uma representação parecida com a do quadro acima de Rembrandt, mas em sentido oposto. Quem está sendo contida é uma pequena e frágil criança enquanto a enfermeira pinga as gotinhas mágicas da vacina contra poliomelite em sua boca. Uma história de proteção à vida.

Vacinação contra a pólio no povoado de Irro-Jo Whandhio, distrito de Mithi, Paquistão, 2001. Foto: Sebastião Salgado.

Como Rembrandt, Sebastião Salgado retrata o momento derradeiro de uma ação, mas também uma história futura: sabemos que a criança, depois da vacina, jamais ficará incapacitada para a vida pela poliomelite.

Se você quer estudar fotografia ou simplesmente apreciar a arte, vale a pena comprar os livros de Sebastião Salgado. Mais do que um tratado de composição e luz na fotografia, são uma obra de arte, a emoção transmitida nas imagens e a beleza de um trabalho digno e de extrema importância para a humanidade, reconhecido pela Unesco.

Aqui nesta foto na invasão do Kwait em 1991, o homem sendo banhado com espuma para protegê-lo do calor extremo do fogo, conta a história do homem apagando incêndio nos campos de petróleo no pós-guerra. Olha que foto espetacular!

Sprays quimicos protegem o trabalhador contra o calor das chamas. Greater Burhan, Kuwait, 1991. Foto: Sebastião Salgado

O que seria dessa foto sem a presença do homem e este belo contraste do spray? Apenas uma foto ordinária de algo pegando fogo, sem qualquer história.

Essa outra mostra as ruinas da outrora prestigiosa avenida Jade Maiwan, em Cabul, no Afeganistão:

Cabul, Afeganistão, 1996. Foto: Sebastião Salgado

O cenário desolador, a infraestrutura devastada, a enorme pobreza e o fundamentalismo islâmico dos talibans (a mulher com a burca) estão representados nessa foto.

 Entreculturas – Luigi Rotelli